Os Caretos de Podence são uma expressão cultural com grande genuinidade. Desde as últimas três décadas que os chocalheiros da aldeia que dista da cidade de Macedo de Cavaleiros escassos quilómetros, têm levado a todo o país e ao mundo a peculiaridade de uma tradição milenar que esteve quase a perder-se. Depois do 25 de Abril de 1974 tudo renasceu em Portugal, e os Caretos de Podence não fugiram à regra. Numa altura em que o Entrudo de Podence nos surge com um programa de grande qualidade, o NN foi falar com António Carneiro, Presidente da Casa do Careto, que nos explica um pouco da história dos seus chocalheiros e nos elucida sobre como vai ser este ano na sua aldeia o carnaval mais autêntico de Portugal.
Notícias do Nordeste (NN) – A tradição de Podence, que tem o careto como principal exilibris esteve quase ameaçada, diria que esteve mesmo extinta. Quer-nos contar como foi retomada essa tradição?
António Carneiro (AC) – Sim de facto como disse e muito bem, a tradição dos Caretos de Podence esteve quase extinta. E quase extinta, derivado principalmente a dois factores importantes: a guerra colonial que levou os jovens para fora; e a emigração que também levou a gente jovem para fora. A partir de 1975 com a revolução de Abril, as coisas mudaram, uma vez que o antigo regime não via com bons olhos esta tradição. Mas Podence é um caso particular, porque alguém de Macedo que tinha alguma influência, tentou que a tradição não morresse. Estou a referir-me a um médico de Macedo de Cavaleiros que era natural de Podence e que fez com que os Caretos se mantivessem. Nos anos setenta, havia apenas três trajes de Careto e foi a partir de 1975 com a realização do filme de Noémia Delgado, que vem o ressurgimento desta tradição que esteve quase extinta. A partir daí os jovens começam a interessar-se por este tipo de manifestação e até aos dias de hoje tem havido um crescente, desta tradição. O ano de 1985 é outro marco também muito importante para os Caretos de Podence, uma vez que acontece a primeira saída dos Caretos. É a primeira vez que os caretos saem do seu habitat natural e vão para uma cidade, através da GEFAC, uma organização ligada à Academia de Coimbra que os convidou duas ou três vezes. A partir daí os caretos nunca mais pararam. Nos dias de hoje os Caretos de Podence têm um curriculum muito grande, tanto em termos de participações em todo o tipo de festivais como em animação de rua.
NN – A “Casa do Careto”, através dos chocalheiros de Podence tem levado a região nordestina e o concelho de Macedo de Cavaleiros a todo o País e mesmo ao mundo. Como sente essa responsabilidade?
AC – É uma responsabilidade muito grande. E eu posso afirmar que a Casa do Careto em Podence é o local mais procurado e visitado do Concelho de Macedo de Cavaleiros. A Casa do Careto leva o nome de Macedo e de toda a região para todo o País e para todo o mundo. É só ver desde a inauguração da Casa do Careto, as pessoas que a têm visitado. Na ordem das doze mil. Este é um número de visitantes muito grande e muito bom para uma aldeia. Estes números falam por si.
NN – O careto evoca uma tradição que, no caso de Podence, tem dois elementos essenciais: por um lado o fato garrido multicolor, atractivo, bonito… por outro a máscara, essa com um significado mais simbólico, mais intimista, mais enigmático.Ainda existem artesãos em Podence para estes dois elementos? As máscaras e os fatos são feitos na aldeia? Quem os faz?
AC – Em Podence, felizmente ainda conseguimos fazer o traje completo, embora com muitas dificuldades. Esse é também um dos muitos papéis desta Associação, o de preservar e de ar apoio aos artesãos aqui da aldeia. O fato em si é feito de forma comunitária, uns fazem uma coisa, outros fazem outra e consegue-se desta forma fazer o fato completo. A máscara também. Temos dois ou três artesãos que conseguem fazer as máscaras. Também proporcionamos que essas máscaras feitas pelos artesãos sejam vendidas na Casa do Careto, para que possam ser adquiridas pelas pessoas que nos visitam, se quiserem levar uma recordação da tradição dos Caretos de Podence.
NN – Os rituais não admitem mulheres…
AC – De facto os rituais estão interditos a mulheres. A Tradição dos Caretos é acima de tudo um ritual de fertilidade e o grande álibi do careto é chocalhar a mulher, e neste caso a mulher solteira. Onde houver um “rabo de saia” o Careto está lá para a chocalhar. E dessa forma não queremos que a mulher se traje de Careto. Todavia existem situações de excepção, mas neste caso, tentamos manter a tradição e por isso vedar o acesso às mulheres.
NN – Este ano a Casa do Careto lançou um programa de Entrudo sobretudo assente na qualidade. Quer-nos falar um pouco do programa do Entrudo Chocalheiro de Podence?
AC – O Programa do Entrudo Chocalheiro é um programa muito ambicioso para as possibilidades que a Associação do Grupo de Caretos de Podence tem. Mas o feedback que nos deram nos últimos anos as pessoas que nos visitam levou-nos a ter um programa muito arrojado. Esse programa passa por ter uma mini feira de produtos regionais onde as pessoas que nos visitam podem comprar produtos da terra. Inovamos também num leilão chocalheiro, em que vamos dar oportunidade a quem nos visita de trajar o Careto. Existem muitas pessoas que gostavam de se vestir de Careto e este ano vão ter essa oportunidade. Vamos ter um programa de animação de rua muito diversificado e variado. São grupos convidados em que o Grupo de Caretos de Podence faz permutas durante o ano. Posso destacar alguns, como os Galandum Galundaina, o Grupo dos Latos de Bagueixe, o Grupo dos Bombos de Ala, isto no domingo. Na terça-feira vamos ter o Grupo de Gaiteiros “Trouxa Mouxa” e o Grupo de Bombos “BomboÉmia” do Grupo da Academia da Faculdade do Minho. Os grupos de animação de rua vão estar em Podence, do dia 18 ao dia 20, ou seja, sábado, domingo e terça-feira. Vamos ter também um espaço ligado à arte para dar oportunidade a um pintor da região que tem feito um trabalho notável, que é o António Santos Silva, que vai fazer uma exposição “Máscaras e Mascarados” a inaugurar no dia 18, domingo, na Casa do Careto. A nível de exposições, foi também lançado um desafio à Escola EB2.3, de Macedo de Cavaleiros, sobre o tema “Entrudo Chocalheiro”, em que aos alunos da disciplina de Educação Visual Tecnológica (EVT), se pediu para pintaram de uma forma interessante os Caretos de Podence. Vai ser atribuído um prémio a alguns trabalhos destes participantes. No domingo, também vai haver o chamado pregão casamenteiro, os casamentos, que vamos dar continuidade em Podence. Vai ser feito à noite, junto à igreja e vamos manter esse ritual, que também faz parte da tradição. Também muito interessante, e que no fundo foi o despertar para que a tradição se mantenha viva, vai ser a projecção do filme de Noémia Delgado, “As Máscaras”. Quem quiser pode associar-se a esta iniciativa. Vamos ter também a parte gastronómica nesse dia, em que será servida uma feijoada à Transmontana cozinhada no pote. Vamos também celebrar a queima do Entrudo, que será o enterrar das festividades carnavalescas de Podence. No fundo é um programa muito ambicioso, como disse, para as possibilidades que esta associação tem. Temos muita carolice, muito querer e acho que vamos conseguir, porque o nosso cartaz é acima de tudo muito apelativo.
NN – Falou-nos do documentário de Noémia Delgado. Como conseguiram repor o documentário de Noémia Delgado, uma vez que se trata de uma verdadeira jóia documental sobre a etnografia da nossa região?
AC – Não foi fácil. Este objectivo de trazer o filme de Noémia Delgado aqui a Podence é uma luta que dura já há 2 ou 3 anos. Tivemos a sorte de encontrar alguém que é natural de Macedo de Cavaleiros ligado às relações pessoais da Noémia Delgado que nos abriu as portas junto dela para nos facultar a cópia do documentário que a partir de agora vai fazer parte integrante do espólio da Casa do Careto. Não foi fácil, mas como se costuma dizer, as coisas que não são fáceis de concretizar são as que nos dão mais gosto e o que interessa é que conseguimos e agora o documentário vai ser projectado em Podence. Vamos ter aqui muita gente a ver este filme, que além da tradição de Podence mostra também outras localidades aqui da região que também têm este tipo de tradição. Podence é a única aldeia em que o ritual do Carnaval existe, nas outras localidades é mais na Festa dos Rapazes.
NN – O Entrudo Chocalheiro de 2007 possui um programa bastante ambicioso, com que apoios financeiros contam?
AC – Os apoios financeiros são praticamente nulos. O apoio financeiro que temos é de algumas entidades particulares que nos apoiaram em géneros e a parte da publicidade. Os outros custos são suportados pela Associação dos Caretos de Podence. Não temos qualquer outro tipo de apoio financeiro.
NN – Para as pessoas que nos lêem e vêem, que convite faria relativamente ao Entrudo Chocalheiro. Que pode esperar um visitante que optar por vir este ano ao Carnaval de Podence?
AC – O Carnaval de Podence este ano promete. Faço aqui um apelo a todos os que queiram ver o Carnaval mais genuíno e tradicional de Portugal. Para isso têm que vir a Podence. Temos várias actividades. Não só a actividade chocalheira dos Caretos, como a feira de produtos regionais, as exposições e a animação de rua. Tudo isto vai ser uma mais-valia para que as pessoas possam desfrutar de um dia diferente. Podence está num ponto central em termos de localização, temos o Azibo, a Barragem do Azibo, que também poderá ser um local que complementa a Tradição dos Caretos. Não vão perder o tempo em vir a Podence, porque os Caretos de Podence são uma Tradição que acima de tudo marca a diferença.
Ver vídeo da Entrevista
Carregue duas vezes na seta esquerda do player para fazer o buffering deste Vídeo. Para Ver com melhor qualidade carregue no botão direito do player e opte por "original size".